Páginas

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

[Estômago embrulhado. A digerir concretos]

 



Dói o estômago nessa ansiedade noturna
a confundir-me com fome e sede,
uma desculpa qualquer para abrir-fechar a geladeira.
Passos roucos, sussuro pouco, grito mudo.
Silêncio que invade e desabita
na noite-quase-dia.


E dentro só anoitece.


Dói a ansiedade.
Gastrite misturada com fome.
Não me esquivo de senti-la.
Mesmo com a dor física,
a questão é não saber o porquê.

Se são as dores do mundo que se acumulam e pesam;
as palavras não ditas ou os silêncios;
a solidão ou a multidão;
o amanhã incerto ou o presente sólido a desmanchar-se no ar;
as poesias não escritas e a fome de dizê-las;
se é a vontade de ficar e o desejo de ir;
o resto e o que não será... Não sei.

Queria que fosse apenas por um nome, 
um rosto, um romance ou promessa disso.
É que, ultimamente, escapam de mim cousas assim.
Queria um eufemismo chamado paixão.
 
É melhor quando arde o peito e não o estômago.



Um fragmento de Neta. Evenice Netíssima.

Nenhum comentário: