Laura já havia desmarcado mais de três vezes o dia de fazer a faxina do apartamento.
Só faltava uma semana para a nova companheira de quarto chegar.
Precisava causar boa impressão. Assim seria mais fácil cobrar o mínimo de organização posteriormente.
Corte no orçamento. Era preciso economizar.
O jeito era dividir o aluguel com alguém.
Lembrou repentinamente do processo de escolha da nova hóspede.
Riu. Prometeu a si mesma que escreveria algo sobre isso. Valia o registro.
Olhou pra caixa vermelha guardada no guarda-roupa.
Sentiu na hora que não deveria começar por ali.
Mas era teimosa.
Fechou o olho, suspirou, abriu a caixa e pegou um dos papéis lá do fundo.
Ficou surpresa com a escolha "aleatória". Sabia bem do que se tratava.
Há quatro anos alguém quebrava seu coraçãozinho juvenil e ardente.
Ainda escrevia algumas coisas nessa época.
Foi numa noite de sexta, entre sonhos, suspiros e lágrimas, ao som de Billie Holiday, que sua caneta preta favorita castigou a folha última de seu caderno de anotações.
"De que me adianta essa nova estação batendo em meu peito?
Os otimistas diriam: Isso te dá mais dias de vida, menina! De vida!
E qual a vanta?
Esses dias vindouros anunciam apenas a extensão de uma dor que já se fez dolorida no primeiro suspiro.
Ah se soubesses do estrago que fizeste em meu ser. Que deixaste de fazer, aliás.
Porque, te digo, não temo a dor, a solidão ou o desencanto.
Temo apenas a falta de tentativa e ousadia.
A dúvida eterna do que seria se assim [não] fosse.
Não vou desistir sem antes olhar com toda minha ternura em teu olho e dizer todo o remelexo que meu corpo sente em tua presença. Sem falar no arrepio na espinha e na respiração suspensa ao pensar em ti.
Ou da euforia ao ouvir teu nome ou imaginar tua presença num canto em que eu esteja.
Não crio expectativas com isso. Provavelmente não mudarás tua postura diante de minha confissão. Para quê, então?
Para que tu passes o resto da vida a perguntar à memória que não terá que memória teria se tivesse sido... Praga? Não.
Desabafo? Tampouco. Profecia? Não desejaria isso a ti.
É apenas uma história.
Só isso."
A essas alturas, Laura já tinha se arrependido de abrir o baú.
Uma memória doída invadiu o apartamento, o corpo de Laura, o coração de Laura.
"Justo esse papel? Justo esse?"
Guardou a caixa.
Trocou a "playlist", deitou no chão da cozinha e deixou as lágrimas rolarem.
No mesmo som de outrora.
[cá entre nós, qualquer escolha dentre aqueles papeizinhos da caixa vermelha findaria em algo do tipo]
Um fragmento de Neta. Evenice Netíssima.

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