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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Boemia [a dor de cotovelo disfarçada]

Ele saiu gritando rua abaixo em plena 2 da madruga:
"sou boêmio! sou boêmio!"
Àquelas alturas, a vizinha já acendera a luz.
O recém nascido chorava e, a sua mãe, se pudesse, choraria mais ainda.
Os cachorros, todos eles, latiam alto e desesperadamente.
Pareciam dizer: "e eu com isso! auauauauau"
O senhorzim que mora na esquina foi até à calçada.
Acompanhou a caminhada do rapaz sem pestanejar.
Colocou as mãos feito duas conchas em volta da boca,
como se quisesse um segredo revelar.
"Isso é dor de cotovelo, meu amigo"
O boêmio baixou a cabeça porque buraco não havia para enfiá-la.
"Confessou", concluiu o senhor.

Para o boêmio, ofereço:
Vou de boteco em boteco
bebendo a valer
na ânsia de esconder
as dores do meu coração
conselhos não adiantam
estou no final
perdi o élan
perdi a moral
o meu caso não tem solução

Eu bebo de mais pro meu tamanho
arranjo brigas e sempre apanho
isso me faz infeliz
entro no boteco
pra afogar a alma
as garrafas então batem palmas
me embriado
elas pedem bis
entro no boteco
pra afogar a alma
as garrafas então batem palmas
me embriado
elas pedem bis

"De boteco em boteco" - Nelson Sargento


Um fragmento de Neta. Evenice Netíssima.

Um comentário:

Ediane Soares disse...

Acho mesmo é q é a dor de cotovelo DECLARADA! :)

Beijo de saudade.